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MÁRCIA CRISTINA FERNANDES

Márcia recebeu o diagnóstico aos
26 anos. Muito nova para ter câncer? Infelizmente, as mulheres tem tido câncer de mama cada vez mais cedo.
Dos cerca de 60 mil novos casos da doença que acontecem todos os anos,
a maior incidência ainda está entre as mulheres com mais de 50 anos.

Porém, a cada ano vem aumentando os diagnósticos em mulheres com menos de 35 anos. No Brasil, a faixa etária até 35 anos historicamente representava por volta de 2% dos casos e agora já chega a 5%. O fato vem acontecendo não apenas no Brasil, mas também em vários outros países. Os especialistas acreditam que isso se deve ao aumento de alguns fatores de risco relacionados a estilo de vida, como menor número de filhos, gestação mais tardia, alimentação inadequada, associados à correria e ao estresse do dia a dia.

Além do aumento de incidências em mulheres jovens, as dificuldades para conseguir um atendimento digno atingem todas as faixas etárias e classes sociais. Foi o que aconteceu com a gaúcha precocemente aposentada, Márcia Cristina Fernandes, agora com 37 anos. Quando a encontramos onze anos após seu primeiro diagnóstico, Marcia nos relatou sua luta, seus desafios e sua capacidade de superação.

“Aos 26 anos, em 2008 eu era uma pessoa muito alegre, cheia de sonhos. Estava no banho e senti uma coisa estranha no peito. Era um nódulo. Fui ao médico e pedi para fazer os exames. Não queriam liberar os pedidos de exame, tanto por causa da minha idade – diziam que eu era muito nova –, como por meu estilo de vida saudável e por não ter casos de câncer na família. Eu insisti e finalmente consegui que fizessem a ecografia mamária, ou ultrassom. Durante os exames fui encaminhada para fazer uma biópsia imediatamente. Foi quando eu confirmei minhas suspeitas de que não era nada bom o que estava acontecendo comigo.

Na época, eu estudava e sempre fui muito comunicativa. Depois dos exames médicos fui para a aula e minha professora percebeu que eu estava diferente. Tentei desconversar mas ela insistiu: ‘Você não está bem. O que está acontecendo?’ Eu contei sobre as suspeitas e ela me encaminhou para o mastologista dela. Esse apoio foi fundamental. Mas, viriam muitos desafios. Tive que ter coragem para falar para minha mãe. Ela me tocou e também sentiu o nódulo. Foi comigo no mastologista.

 “Me agarrei na fé e na família. Foi um turbilhão que mexeu com tudo.”

Na minha família somos muito católicos e praticantes. Me agarrei na fé e na família. Foi um turbilhão que mexeu com tudo. Estava terminando a faculdade, tinha meu emprego, meus sonhos. Fiquei com muito medo. Veio o resultado dos exames. Eu tinha um tipo de câncer muito agressivo HER 2 positivo. Até eu saber disso demorou um pouco. Na consulta eu estava com a minha mãe quando ele disse: ‘Pode se trocar lá fora que eu vou falando com a sua mãe’. ‘Mas eu quero saber de tudo’, respondi. Ele queria esconder a gravidade do diagnóstico porque eu era muito nova e não sabia como dizer que eu estava com um câncer tão agressivo. Na hora, apesar do susto, tentei reagir: ‘Não vou parar nada do que eu faço’. Mas o médico jogou um balde de água fria na minha decisão: ‘Você vai ter que parar tudo”.

Fiquei lá, agarrada com todos os exames junto ao corpo e fui ouvindo o que ele dizia. Era preciso começar imediatamente as quimios – fiz 10 sessões – e depois mais 36 sessões de radioterapia. Além de tomar medicamentos que inibem a produção hormonal, causam menopausa precoce, como o Herceptin e o Trastazumabe. Realmente, tive que parar tudo. Fiquei um ano e meio afastada do trabalho”.

“Durante cinco anos eu vinha me preparando para a minha formatura. Sonhava com a festa, com o vestido, com a viagem… e agora, como ia ser? Tentava seguir com a vida normal e realizar a todo custo o que eu planejei por tanto tempo.”

Sonhos interrompidos

Chegou o dia da formatura. Eu tinha acabado de fazer três aplicações de quimioterapia, e estava muito debilitada, completamente careca, abatida. Precisava me levantar. Pesquisei os preços das perucas, mas era inviável para mim. Andando meio perdida num shopping vi em uma loja uma das manequins da vitrine com cabelos sintéticos iguaizinhos aos meus. Eu estava de lenço. Entrei e perguntei para a vendedora quanto custava a peruca. ‘Não está à venda. O acessório é apenas para compor o look das manequins’, me disse ela. Não tive dúvida: tirei o lenço e contei sobre o meu sonho da formatura e tudo que estava acontecendo comigo. Ela correu para chamar a gerente que, sem pestanejar, me deu a peruca de presente.

Meus colegas na faculdade nem imaginavam que eu estava com câncer. Era época de conclusão de curso e eu não ia muito na faculdade. Por isso, ainda não tinham me visto careca e não sabiam que eu estava com câncer. Então, com os ‘cabelos’ novos que ganhei da gerente da loja, resolvi me produzir para a formatura: me arrumei, me maquiei e ninguém percebeu que eu estava de peruca. Só minha mãe sabia. Ela estava morrendo de medo que a peruca caísse bem na hora que estivesse recebendo o canudo. Ela chorava sem parar. As pessoas achavam que ela estava emocionada por ver a filha se formar. A única coisa que estranharam no meu look foi a franja. Eu nunca usei franja. E disseram: ‘Nossa, ficou legal esse visual novo para a formatura!’ Esta foi a única vez em que usei peruca. Dali em diante fiquei com a carequinha à mostra mesmo, super assumida.

Apoio que faz a diferença

Fui tendo que aprender a lidar com tudo que acontecia comigo. E um ano e meio depois, em 2009, eu descobri o IMAMA – Instituto da Mama de Porto Alegre. Se eu soubesse antes que essa ONG existia já teria procurado por eles. Certamente ganharia uma peruca, lenços, chapéus. E teria todo o apoio psicológico que tanto precisava. De qualquer maneira, o mais importante foi o que vivi a partir do momento que passei a frequentar o instituto. Vi que tinham outras pessoas com a mesma doença que eu e que não estava só. Com o suporte do IMAMA fiz todo um planejamento para saber lidar com a doença e com tudo que viria com ela. Na minha idade, era preciso pensar se eu ia querer ter filhos ou não, por exemplo. Naquele momento, confesso que mais que tudo, eu queria viver!

Novos desafios

Em 2010 fui demitida. Estava em pleno tratamento, com todas as dificuldades físicas e emocionais e ainda tive que lidar com mais essa perda, a do emprego. Entrei em depressão. Não tinha plano de saúde e pela frente um tratamento longo e caro me aguardava.

O relacionamento com meu namorado chegou ao fim. Tudo começou a ruir. Mas eu optei por terminar o namoro e vivenciar tudo aquilo de forma mais reservada, só eu e meus familiares. Foi difícil, mas eu cresci muito nesse período.

Novos horizontes

Em 2013, seguia com o tratamento tomando o medicamento que reduz as chances do câncer voltar, o Tamoxifeno. Em meio a luta que não terminaria tão cedo, porque teria que tomar o medicamento por mais 5 anos, era preciso me sentir viva, útil e também encontrar alegria de viver. Neste mesmo ano voltei ao mercado de trabalho e resolvi participar do Acampamento Farroupilha, uma festa tradicional gaúcha que acontece todos os anos. Lá, no meio da festa e do churrasco, encontrei um gaúcho todo vestido à caráter. Com a gente diz por aqui: bem gaudério, pilchado para o baile, com chapéu, lenço, bombacha bem passada, botas brilhando e tudo que tinha direito. Encontrei o Emerson e estamos juntos há seis anos.

Foi um encontro lindo que seguia bem. Ele sempre me apoiou, sabia de tudo e me dava força nos momentos difíceis. Eu estava com 32 anos e usava DIU. Emerson conversou comigo para tentarmos ter um filho. Eu avisei que por causa do tratamento seria difícil. Mas, mesmo assim, em fevereiro de 2014 tirei o DIU. Em marco, menos de um mês depois, descobri que estava grávida. E em 20 de setembro nasceu a Lara, nossa linda bebê prematura de oito meses.

Ondas bravias

Em 2015, quando acreditei que tudo estava entrando nos eixos, me senti mal, com dores e dificuldade para respirar. Fui parar em uma UPA – Unidade de Pronto Atendimento – onde constaram que eu estava com um derrame pleural. Pediram uma tomografia. Fui a três hospitais e, como entrei pelo SUS, não queriam me atender. Acabei na Santa Casa e, depois de seis horas esperando, uma médica, a quem eu chamo de anjo, resolveu fazer o atendimento e brigar por mim no hospital para que eu conseguisse o exame: ‘Quero essa tomografia agora!’, disse ela, contra tudo e todos. Lembro que era início de agosto e o resultado veio só no fim do mês: câncer de mama metastático. A doença tinha voltado e, se espalhado. Descobri que tinha câncer em outra parte do corpo. E desabei. O que mais me tirou do eixo é que, provavelmente, a situação tinha se agravado por causa da demora no atendimento.

Estava com metástase. Tinha que começar outra vez, fazer as quimios novamente e tomar outro medicamento específico para câncer de mama metastático, o Trastazumabe. Não tinha o remédio pelo SUS. Ali se iniciou uma saga pela vida.

Eu vou morrer! Eu tenho 32 anos e vou morrer porque ninguém providencia o remédio que eu preciso tomar. Quem aqui vai criar a minha filha?”

Um grito pela vida

Tive que ir à defensoria pública, fazer uma perícia, mas o que me salvou foi que eu tinha informação. Eu já frequentava o IMAMA, conhecia o meu tipo de câncer, os meus direitos e sabia do que eu precisava. O perito não queria me liberar. Como eu fiquei seis meses esperando pela medicação o câncer se espalhou e atingiu os ossos. Finalmente, ganhei na justiça o direito da medicação pelo SUS. Mas, como nada é assim tão fácil, o governo não dispunha do remédio. Eu reuni forças e fui às audiências públicas do jeito que estava: magra, careca, definhando. Enquanto os técnicos e burocratas sentados confortavelmente aumentavam o tom do discurso, dizendo que ‘precisavam ajudar as mulheres e bla bla bla’, eu ouvia tudo ali por um fio… Até que pedi o microfone. Vi que tinha uma equipe de TV por lá e chamei os repórteres para que todos pudessem ouvir o que eu tinha para dizer e para que minha palavras tivessem eco: “Eu vou morrer! Eu tenho 32 anos e vou morrer porque ninguém providencia o remédio que eu preciso tomar. Quem aqui vai criar a minha filha?” Depois disso, o caso repercutiu como uma bomba na mídia, nas redes sociais e o meu remédio ‘apareceu’, como por milagre. Hoje, convivo com o câncer de mama metastático, com as dores, com o medo de saber que estou com o câncer espalhado pelo corpo, mas estou forte. Faço parte do IMAMA, ajudo outras mulheres que não tiveram a mesma oportunidade que eu, que não tem ainda a informação que precisam para sobreviver. Enquanto eu viver vou lutar por elas e pela dignidade da vida.


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