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GEL MUZZILLO

A publicitária Gel Muzzillo, 49 anos, enfrentou o câncer de mama três anos depois de ter tratado um câncer no ovário. Num relato emocionante, ela fala de sua experiência, dos medos, da detecção tardia, de vários desafios. E também da quimioterapia, que fez por um ano para reduzir o tumor e, então, duas cirurgias. Depois fez a radio. Agradece pelo apoio do marido, da família e dos amigos. Aprendeu a se cuidar, a transformar veneno em remédio, e segue trabalhando com sua agência de modelos, cuidando de todos, com força, fé e coragem.

A publicitária Gelsiane Letícia Muzzillo, conhecida como Gel Muzzillo, descobriu o câncer de mama aos 49 anos, em 2018. Três anos antes, em 2015, ela já tinha enfrentado o câncer de ovário.

Tivemos o prazer de conhecer Gel e fotografá-la em 2019. Uma pessoa de muito bom humor e alto astral. Certamente não foi fácil encarar o câncer duas vezes. Ela nos conta um pouco sobre sua jornada.

Sua agência, a Gel Casting, agencia modelos e produz elencos para publicidade. Depois que retirou o ovário, teve que reduzir a dinâmica de trabalho. Passou a dar cursos para atores e modelos. Sempre muito dedicada, seu trabalho cresceu e o espaço que ocupava também. Assumiu uma sede e funcionários, criando a agência do tamanho que deveria ter. “Eu criei a agência que eu queria, com práticas de mercado mais humanas. Não lidava apenas com modelos, mas com pessoas reais. Só agenciava quem eu acreditava.” Para as outras pessoas, Gel dava alguma direção e dizia: “Experimenta fazer aulas de teatro, cuidar do corpo…” E continua fazendo assim até hoje.

O câncer de mama

Em agosto de 2018, Gel sentiu um caroço na mama esquerda, perto do mamilo. “Eu sabia que era um nódulo, porque minha mãe teve o câncer de mama em 2003 e minha irmã em 2012. A vivência na família me sinalizava o que devia estar acontecendo e eu disse para mim mesma: ‘Já sei o que é. Mas espera, fica quietinha. Agora é hora de eu cuidar da agência.’ Enfim, eu fui negligente e demorei para tomar as medidas necessárias. Só no final do ano fiz os exames e a mastologista, apesar de notar algo diferente na mama, me disse para eu não me preocupar. Ela disse que era melhor eu investigar, mas que não devia ser nada.” Gel só ouviu a parte que a médica dizia que ‘não devia ser nada’ e o nódulo foi crescendo.

Em janeiro de 2019, Gel estava com uma camiseta branca e, de repente, viu uma mancha. “Começou a sangrar pelo mamilo! Tirei a blusa e fotografei. Mandei a imagem para o meu primo, meu ginecologista. Ele falou: ‘Vem aqui agora, dona Gelsiane.’” Desde o primeiro exame, em 2018, o primo médico tinha pedido que Gel fizesse um exame mais detalhado, a Core Biópsia da Mama. Mas Gel ouviu a mastologista dizer que ‘não era nada’ e deixou a vida seguir, sem se preocupar. “Imagina a bronca que eu levei do primo ginecologista. É verdade: eu morro de medo de agulhas e não queria fazer o tal exame. Mas naquele momento não teve jeito e enfrentei a Core Biópsia. O exame não foi tão ruim como eu imaginava. Mas a médica que analisou o teste ficou impressionada com o tamanho que já estava o nódulo.”

Fazer os exames o quanto antes

Por isso é que hoje Gel avisa para as pessoas não terem medo e fazerem os exames o quanto antes. O tumor cresce e tudo fica mais complicado… Gel não tinha plano de saúde e foi encaminhada pela sobrinha do seu primo médico, que é a chefe da oncologia do Hospital Mackenzie, em Curitiba, tendo sido atendida pelo SUS. Com todo o acompanhamento e os exames corretos ela soube mais detalhes sobre o câncer que tinha. Foi pedido que ela começasse a quimioterapia para diminuir o tumor e só depois operar.

Hoje, Gel reflete que algumas reações diziam que o corpo dela não estava bem.

“Antes do diagnóstico tive dois ou três desmaios e não me toquei… deviam ser sinais.”

Tratamento: quimio, cirurgia e radioterapia

Ela iniciou a quimioterapia no final de janeiro e as sessões seguiram até setembro de 2019. Os primeiros ciclos eram de vinte em vinte dias e o último, o da quimio branca, ela fazia toda semana. “Fiquei bem debilitada. Tive que ser internada três vezes para transfundir, ou seja, receber sangue bem devagarinho, por quase seis horas. Nas últimas semanas da quimio minhas plaquetas estavam baixas e eu mal conseguia sustentar meu corpo.”

Depois de quinze dias da última sessão, ela fez novos exames que detectaram que o tumor tinha diminuído. Só então ela pode ser operada. “Tive que fazer duas cirurgias. Tentei colocar o bico do peito e um expansor, acessório que é implantado para expandir a pele e assim caiba a prótese. Mas tive febre, fiquei com o corpo debilitado.” A médica que operou pela segunda vez ficou impressionada, pois estava tudo infeccionado. Ela teve que tirar o expansor, que foi rejeitado pelo meu corpo, e também removeu o bico e a aréola, que antes ela tinha preservado.

Mais surpresas

No início de 2020 Gel começou a radioterapia que terminou em dezembro. Os atrasos aconteceram por causa da pandemia.
Gel sabia da necessidade de esperar seis meses depois da radio para fazer uma nova cirurgia. “Seguia com meus exames de rotina. Engordei muito, quase 20 quilos. Aí verificaram que a tireoide estava com problemas, parou de funcionar. Era hipotireoidismo que sigo tratando. Quando melhorar vamos ver se há a possibilidade de marcar a cirurgia de reposição da mama.” Gel terá que tomar a medicação para o hipotireoidismo pelo o resto da vida. “Vamos controlando. Não posso fazer reposição hormonal porque meu câncer é relacionado ao hormônio. Vou controlar e vencer.”

Apoio sempre presente

É importante dizer que apesar dessa montanha russa, Gel teve muito apoio durante seu tratamento. Casada com o músico Marlon Siqueira, ela teve um grande companheiro. “Marlon me deu um grande apoio, desde o primeiro câncer. Em função do trabalho dele e do meu a gente sempre protelou ter filhos. Nem ele e nem eu tínhamos tempo para cuidar de crianças. E agora ficou ainda mais complicado. Mas continuamos lidando bem com tudo isso.”

O apoio também veio da família da Gel. Além do primo ginecologista, Gel foi cuidada pela mãe. Principalmente depois das cirurgias. “Eu fiquei por dois meses na casa da minha mãe, recebendo todos os cuidados. E, mesmo assim, o Marlon sempre esteve por lá, me apoiando”.

Medos, aprendizados e a força da espiritualidade

Na descoberta da doença, como Gel descreveu, ela demorou para fazer os exames e deixou o câncer evoluir. Quando vieram os resultados ela se deparou com um turbilhão de sentimentos. “Senti medo. Pavor. Pensei: ‘Agora ferrou, vou morrer’. Tenho pânico de agulha. Mas vou tratar. Vi minha mãe e minha irmã passarem pelo tratamento e superarem, estavam bem. Elas sobreviveram, foram guerreiras. Era minha vez. Me agarrei na minha fé budista, que ensina: ‘aceita que dói menos. Não esmorece, não se entrega. Foca na sua saúde física e mental’. A recitação diária do mantra, que chamamos de Daimoku, me ajudou a superar todos os medos que eu tinha. Eu tive amor e apoio de todos os lados: da família, dos amigos e dos companheiros.”

Um fato interessante aconteceu: “No meu seio esquerdo, onde estava o tumor e onde fiz a cirurgia, surgiu uma espécie de desenho, um esboço leve, em forma de coração. Fiquei impressionada. Parecia um carimbo. Poderia ser uma alergia, mas não era. Eu senti como se fosse um sinal de amor.”

Em resumo

Sim, Gel teve medo. Ela sentiu medo de não poder se cuidar e cuidar de outras pessoas. “Eu sempre coloquei o trabalho na frente. A partir daquele momento teria que deixar de trabalhar pela carreira das pessoas. Eu tinha que tratar da minha saúde. Com esforço, apoio e orações eu aprendi que primeiro tinha que cuidar de mim, do meu bem-estar, até para que eu pudesse viver e trabalhar bem. E assim foi. Não coloquei nem um adereço: nem cílios, nem peruca. Fui enfrentando cada momento. Eu ia trabalhar e dar aulas carequinha. Lembro que fazia quimio na quinta e passava mal sábado e domingo. Mudei minha agenda. Dava um tempo e depois seguia trabalhando.”

Até nas redes sociais Gel compartilhou seus aprendizados. “Pedi apoio e ajuda dos amigos. Lembro que era o início da quimio, em fevereiro de 2019. Fiz uma foto e publiquei no Facebook com a legenda: ‘É possível transformar o veneno em remédio’.” Esse é mais um ensinamento budista. Gel aceitou o tratamento. Percebeu que estava mal, mas que todo mundo fica mal um dia ou outro na vida. “Eu tinha a missão de transformar o lugar em que estava. Eu contava piadas, conversava e tentava deixar o ambiente mais animado. Aprendi que quanto mais tensa estava tudo piorava. Eu procurava levar conforto. Falava com quem vivia o começo da quimio, principalmente das quimios mais demoradas, e eu passava força para essas pessoas. No dia da cirurgia eu ensinei o mantra budista, o Daimoku, que se fala Nam Myoho Rengue Kyo, para toda equipe. A médica me relatou depois que a cirurgia foi longa, delicada, mas que o ambiente daquela cirurgia, com aquela oração poderosa, foi diferente de outros.”

Gel chegou a pensar em desistir. Principalmente durante a quimioterapia, no difícil processo do tratamento do câncer. Mas recuperou suas forças e seguiu firme. “Eu dizia para mim: calma, esse veneno pode ser meu remédio. Depende de mim”. Alguns funcionários da agência ficaram inseguros durante o tratamento da Gel. “Como não sabiam o que ia acontecer comigo, mandaram os currículos para serem recolocados.” Mas muitos permaneceram ao lado dela. Uma dessas pessoas especiais se tornou amiga-irmã. Além de não ter ido embora hoje é sócia. “Temos que reconhecer quem nos apoia. Olhar e recompensar quem te ajudou.”

Planos para o futuro e lições de superação

Gel mantém firmes os planos para o presente e o futuro. “Quero continuar com a agência e cuidar da saúde. É preciso se cuidar e se preservar. Falo para todo mundo: tome água, faça exercício físico e vá ao médico. Divirta-se, trabalhe com amor e viva a vida.”

Com a pandemia, Gel teve que entregar a sede, casa linda em que estivemos. Mas essa visão positiva da vida abriu novas possibilidades para ela. “Um amigo, dono de uma escola de teatro, sempre me perguntava: ‘Como você está?’ E eu contava. Quando ele soube que tive que sair do espaço da agência, ele me disse: ‘Traga para cá os móveis e dá um tempo por aqui.’ Eu levei a agência inteira para lá e hoje trabalho nesse ambiente novo. Também pude ajudar esse amigo que teve que mudar muita coisa.”

Todos somos guerreiros

No fim da nossa conversa e das fotos que tiramos, Gel nos deu uma lição de como dirigir sua vida:

“Todo mundo é guerreiro. Quando somos testados a gente vê que tem força. A entrega é o atestado de morte. Essa força vem e se aprofunda quando nos agarramos à vida. A gente aprende, sempre! Mesmo quando o navio está afundando, se você não souber nadar, se esforça e aprende. Se vira e vence. Transforma veneno em remédio.”

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