O que é um cuidador? Trata-se de um modo de ser, acredita o teólogo Leonardo Boff. O cuidador é aquele que vai além de si mesmo para se centrar no outro com completa dedicação. Um ato de amor, enfim, o que indica que todos nós somos cuidadores, ou pelo menos temos potencial para ser.

O cuidador pode ter vários perfis. “Ele pode ser um profissional de saúde, como os médicos, técnicos de enfermagem, nutricionistas e demais especialistas; um cuidador formal, remunerado para prestar atendimento domiciliar ao paciente; ou informal, geralmente alguém da família – o marido, os filhos, os irmãos – ou mesmo um amigo”, diz a médica paliativista Cristhiane da Silva Pinto, coordenadora científica da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP). Com a experiência de quem atende no Hospital do Câncer IV do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e coordena o Comitê de Cuidados Paliativos do Hospital Pasteur, a doutora afirma que todos os cuidadores, sem exceção, também precisam ser cuidados. Isso porque o atendimento ao paciente com câncer costuma ser constante, muitas vezes é realizado com encontros diários e internações prolongadas, levando o cuidador e o ser cuidado a criar um relacionamento muito próximo, que envolve, além de altas doses de amor, intenso desgaste físico e emocional. “Isso deve ser observado e cuidado, porque o bem-estar de um afeta o bem-estar do outro, de forma recíproca”, conclui a estudiosa de cuidados paliativos Marie Bakitas, professora na University of Alabama School of Nursing em Birmingham, na Inglaterra.

A arte do cuidar

Os laços familiares e a proximidade com o paciente demandam uma atenção especial para com o cuidador familiar. “Mal ou bem, o cuidador profissional e formal é preparado para atender pessoas que estão necessitando de cuidados especiais. Já a mãe, o pai, a filha, o filho ou o amigo de um paciente não. Some a isso o fato de hoje em dia as famílias serem bastante reduzidas, muitas têm somente um filho (algumas, nenhum), surge com cada vez mais frequência a figura do chamado cuidador único, aquele que não tem com quem dividir a sobrecarga de auxiliar uma pessoa com câncer”, ressalta a médica Cristhiane da Silva Pinto.

Muitos deles acabam abdicando da própria vida para cuidar do outro. Abrem mão do trabalho, da convivência com um parceiro e com amigos. E, ao vivenciarem cotidianamente e tão de perto o sofrimento e as angústias do paciente, tendem a se sentir impotentes em razão da dificuldade de aliviar o desconforto e o medo alheio, especialmente nos casos da doença em estágio avançado e fora de possibilidades curativas.

Por estar no olho de um furacão de tamanhas proporções, o cuidador familiar muitas vezes não consegue se distanciar nem se poupar para melhorar a própria qualidade de vida. “É importante ajudar o cuidador a organizar a execução das tarefas, como a hora de dar a medicação, o banho e a alimentação da paciente. Tudo para reduzir a sobrecarga e até as chances de ele, cuidador, desenvolver depressão”, conta a doutora Cristhiane.

É preciso se enxergar

Preocupar-se em — ou lembrar de — olhar para si mesmo quando um ente querido vivencia o câncer não é tarefa fácil, porém, é necessária. Para reforçar a importância de o cuidador não esquecer de si próprio nessa jornada, o oncologista Antonio Carlos Buzaid, autor do livro Vencer o câncer, faz um paralelo com a recomendação das comissárias de bordo: “Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Se estiver acompanhado de alguém que necessite de ajuda, coloque a sua máscara primeiro para, em seguida, ajudá-lo.”. A mensagem é clara: é preciso se preservar para conseguir dar conta do outro. Em nome disso, algumas atitudes ajudam o cuidador a se reenergizar e se sentir capaz de cuidar ainda melhor do paciente, por exemplo:

Respeitar seus próprios limites fazer isso nem sempre é fácil, mas o corpo dá sinais de que é hora de dar um tempo. Um dos primeiros indícios é a irritabilidade, a perda de paciência, a dificuldade para dormir e o comportamento brusco. Diante disso, é preciso pedir ajuda para a família, pensar em revezar o trabalho com um cuidador formal ou, na falta dessas opções, conversar abertamente com a paciente. Falar francamente que precisa descansar um pouco é melhor do que acabar demonstrando a exaustão em gestos e atitudes que o paciente percebe.

Ter alguns momentos de distração ao longo do dia traz duas vantagens evita que o cuidador fique obcecado com o cuidado ao paciente e ainda funciona como higiene mental, aliviando a pressão. Nesses intervalos, vale fazer qualquer coisa que ajude o cuidador a tirar o foco do atendimento, que o estimule a relaxar, como sair para ver o sol, assistir a um filme, uma série ou algo que o agrade, ou encontrar um amigo para um café. Ao organizar as tarefas para as atividades com o paciente é importante incluir na rotina um tempo para cuidar do cuidador.

Aprender cuidados básicos ao dominar algumas técnicas realizadas com frequência, como fazer curativo e dar banho, o cuidador fica mais tranquilo e não se desgasta tanto. O cuidador pode aprender muito pedindo orientação para os profissionais, tirando dúvidas ao acompanhar o paciente numa consulta ou na quimioterapia, participando de palestras, cursos ou workshops, que ensinem inclusive alongamentos e posturas para poupar sua energia e proteger o paciente. Aliás, como a exigência física costuma ser grande, fazer exercícios também é super importante.

Envolver-se na dose certa e procurar apoio de especialistaaprender a dosar o envolvimento ajuda o cuidador a manter a empatia, porém sem desgastá-lo a ponto de impossibilitar o apoio. Para chegar nesse delicado equilíbrio, muitas vezes é importante receber atendimento psicoterapêutico, o que é essencial para evitar uma depressão difícil de tratar. “O apoio psicoterapêutico é fundamental, principalmente para aqueles que têm um relacionamento longo com a paciente. Caso dos casamentos de 30, 40, 50 anos, em que tudo na casa remete à companheira”, alerta a médica paliativista Cristhiane da Silva Pinto

Em resumo, cuidar do cuidador é um aspecto essencial do tratamento. É importante observar que cuidar de outro ser humano é gratificante ao perceber que sua presença é sempre benéfica, e, de alguma forma, você está tornando melhor cada instante da vida de quem o cuidador acompanha: ajuda a paciente a aderir melhor ao tratamento, a entender cada fase que ela enfrenta, amplia as chances de cura e, sem dúvida, todos crescem e aprendem com o processo.

“Ter uma família grande e poder contar com todos se revezando como cuidadores foi essencial para a minha irmã se sentir acolhida. Nos revezamos, e tinha sempre alguém com ela desde o dia em que fez o exame para saber que aquele caroço grande em seu seio era câncer, passando pelas doze sessões de quimioterapia, pela cirurgia para a retirada de uma das mamas até a saída para comprar o sutiã com enchimento. Ela diz que a fuga do namorado e a perda do cabelo doeram muito menos porque nos teve o tempo todo por perto. Além da família, cuidados como o do psicólogo e da turma da maquiagem, no Hospital Pérola Byington, fizeram toda a diferença.”

Francisca Francineide de Queiroz Brito, uma das cuidadoras da irmã diagnosticada com câncer de mama.